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Dia Mundial da Água: desperdício invisível e expansão da IA criam pressão sobre a infraestrutura hídrica Fonte: Por dentro do RN, 25/03/2026

O Brasil concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta, mas perde aproximadamente 45% da água tratada antes que ela chegue ao consumidor final. O dado, do Ranking do Saneamento 2025, revela um paradoxo estrutural: mesmo sendo uma das nações mais ricas em recursos hídricos, o país enfrenta ineficiências que geram prejuízo superior a R$ 12 bilhões por ano e limitam a expansão do acesso ao abastecimento, recursos ainda inexistentes para cerca de 35 milhões de brasileiros.

Nesse momento em que o desperdício físico persiste, um novo vetor de atenção surge na economia: a expansão acelerada da inteligência artificial e da infraestrutura de data centers. O avanço da digitalização exige centros de processamento de alta capacidade, que dependem de sistemas contínuos de resfriamento e são frequentemente associados ao uso intensivo de água, especialmente em regiões de clima quente.

Estudo publicado em 2023 por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside estimou que a geração de 20 a 50 interações em modelos de inteligência artificial pode consumir cerca de 500 ml de água, considerando o uso indireto ligado ao resfriamento dos servidores e à geração de energia. Embora não haja um número global consolidado sobre o impacto total da IA no consumo hídrico, especialistas apontam que a expansão de grandes centros de processamento tende a ampliar a demanda estrutural por recursos hídricos nas próximas décadas.

“O ambiente digital não é imaterial. Ele depende de infraestrutura física robusta, energia e água. Se não houver planejamento, a expansão tecnológica pode pressionar sistemas locais já sobrecarregados”, afirma Felipe Mendes, diretor comercial da T&D Sustentável, empresa especializada em eficiência hídrica que já economizou mais de 1,5 bilhão de litros.

- Água virtual e custo invisível na economia

Além do desperdício visível nas redes de distribuição, o consumo indireto, conhecido como “água virtual”, amplia o desafio de gestão. O conceito se refere ao volume de água utilizado ao longo da cadeia produtiva de bens e serviços. Segundo a Water Footprint Network, a produção de uma única camiseta de algodão pode demandar até 2.000 litros de água ao longo de todo o processo produtivo.

Setores como agronegócio, construção civil, indústria de alimentos e manufatura concentram grande parte desse consumo indireto, muitas vezes sem que o custo hídrico esteja claramente refletido nas decisões estratégicas.

Em um ambiente de maior pressão regulatória e crescente exigência de investidores por métricas ESG consistentes, especialistas defendem que a água passe a ser tratada como ativo estratégico, e não apenas como insumo operacional. “A água deveria ter o mesmo nível de monitoramento aplicado à energia e a outros insumos críticos. Empresas que não medem seu consumo com precisão dificilmente conseguem reduzir perdas ou antecipar riscos”, diz Mendes.

- Eficiência como estratégia econômica

A discussão ganha relevância no contexto de aumento da demanda digital, pressão climática e necessidade de modernização da infraestrutura urbana. As perdas no sistema de abastecimento ocorrem em paralelo à crescente atração de investimentos em data centers no país, impulsionados pela disponibilidade de energia renovável, posição geográfica estratégica e custos operacionais competitivos.

No entanto, existe um alerta de que a competitividade futura dependerá menos da abundância hídrica e mais da capacidade de gestão eficiente. Redução de perdas, monitoramento em tempo real e modernização das redes passam a ser fatores determinantes para evitar que o crescimento econômico e tecnológico se converta em sobrecarga estrutural.

Neste Dia Mundial da Água, celebrado no dia 22 de março, o debate ultrapassa a escassez física do recurso. O desafio central está na eficiência, na governança e na capacidade de integrar infraestrutura hídrica à nova economia digital. Em um cenário de transformação tecnológica acelerada, a gestão da água deixa de ser apenas questão ambiental e passa a integrar a agenda de competitividade e planejamento estratégico do país.

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