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"Comandar um negócio sem ousadia é como andar em uma bicicleta de rodinhas" Fonte: Revista Pequenas Empresas e Grandes Negócios, 05/10/2018

Esta semana me lembrei de quando resolvi ensinar minha filha a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio. Não foi fácil. Minhas costas que o digam. Eu diria que a maior dificuldade que ela encontrava era a falta de confiança em sua própria capacidade de conseguir se equilibrar sozinha.

Na verdade, ela não precisava mais das rodinhas, era evidente o seu equilíbrio, mas ela não se arriscava a andar sem elas.

As rodas configuravam o seu apoio psicológico, suas ‘muletas’, sem as quais todo o peso do insucesso, do fracasso, da incerteza, recaía sobre suas costas, causando, invariavelmente, dores físicas também. Sabemos o que é isso. Também temos nossas próprias ‘muletas’, essas ‘rodinhas de apoio’ que nos mantêm firmes na segurança do passado, mas que nos impedem de crescer e evoluir.

Eu até compreendi sua resistência, natural e inevitável: ‘Por que tirar as rodinhas, pai? Eu ando bem com elas!’. Não dei muita atenção, pois logo surgia a imagem de uma mulher adulta andando de bicicleta ainda com as rodinhas. Todas as amigas dela já andavam sem as rodinhas. Só a convenci quando comecei a falar de uma delas. ‘Olha, a sua amiga Vitória, que é menor e mais nova do que você, já anda sem rodinhas. Você vai ser a única a andar como criancinha?’

Bingo! Infalível! Ela resolveu tentar.

Mas o medo ainda era mais forte. Por mais que eu tentasse acalmá-la, dizendo ‘Calma, pode ir firme que o pai está segurando’, ela não se sentia segura, titubeava e pedia para parar, chorando e querendo desistir. ‘Não, filha, você não vai desistir, eu estou aqui para te segurar’. ‘Mas pai, eu não consigo’. ‘Como não consegue? Como pode falar que não consegue se ainda nem tentou?’ Eu sabia que se parasse naquele momento ela demoraria para retomar coragem e superar o trauma do fracasso. Tinha que ser naquela hora, era o momento apropriado.

Muitas vezes, temos medo de nos arriscar em empreitadas mais arrojadas. Preferimos a segurança de nossas próprias rodinhas (leia-se: emprego).

O pior é que nem sempre podemos contar com o suporte de um pai ou mãe que nos dê apoio, coragem e incentivo. Tampouco temos acesso a informações precisas sobre o momento certo para tirar as rodinhas - muitos fracassos acontecem pela falta de percepção sobre esse momento.

E, por último, não tentamos por causa da maldição do ‘Não consigo’. Declarar a falta de competência é geralmente a desculpa mais usada pelos fracassados e preguiçosos, dos que desistem rápido ou nem sequer tentam. Às vezes, não temos como saber se conseguimos ou não.

Quando possível, temos que tentar, mesmo se for para fracassar e ter certeza que de fato não conseguimos. O fracasso, para empreendedores, é a energia que faz a dificuldade ser vista como desafio. Esta energia gera a determinação para insistir até conseguirmos.

E quanto à minha filha? Bem, acompanhei a bicicleta, segurando para que não caísse, ainda na tentativa de lhe dar segurança, quando percebi que eu estava assumindo o posto de ‘rodinha’, sobretudo quando a vi rir e pedir: ‘Vamos pai, mais rápido!!!’. Com os bofes de fora, achei que era a hora: ‘Está bem, pode ir!’ e soltei. Ela pedalou mais forte e não se deu conta, por alguns longos segundos, que nada mais a mantinha equilibrada senão a força de suas pedaladas. Avançou uns 10 metros e então se virou, viu que eu não estava mais lá, balançou e quase caiu, mas restabeleceu o equilíbrio e gritou triunfante: ‘Consegui! Consegui! Vivaaa!!!’

Que nada, minha filha, quem conseguiu fui eu! Tenho certeza de que, se tivesse mais fôlego, iria continuar empurrando a bendita bicicleta. Vocês pensam que é fácil ser pai? Que é fácil soltar a bicicleta sabendo que seu maior patrimônio pode ir por terra? Se eu pudesse, continuaria segurando a bicicleta até ela cansar de andar. Mas eu sei que não pode ser assim, que temos que soltar nossos filhos quando é chegado o momento.

Um grande amigo meu, dono de uma confecção, está preparando seu filho para assumir os negócios. O filho está pronto, eu e todos os que o conhecem sabem disso. O resto do aprendizado só virá quando ele for exposto sozinho às situações do dia-a-dia.

Mas o pai ainda reluta em deixá-lo tomar decisões por conta própria, chegando a me confessar: ‘É fogo ser pai! Não queremos nunca que nossos filhos se deem mal e queremos sempre protegê-los. Eu sei que preciso largá-lo agora, mas algo dentro de mim ainda vê uma criança na minha frente e não um homem’.

Só para continuar a analogia, eu diria a ele o seguinte: “Tudo o que você está fazendo é segurar a bicicleta para seu filho. Do seu lado, o esforço é maior, enquanto que para ele fica a sensação da velocidade diminuindo. E com ela o ímpeto, a energia e a disposição que nem sempre voltam. Quantas vezes você não caiu e esfolou o joelho enquanto tentava andar de bicicleta? Cair faz parte, tanto quanto se levantar e tentar novamente. Quem não corre riscos no seu negócio está, na verdade, correndo um risco maior ainda, mas do qual não se deu conta: o risco da paralisia.

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